Anna Boghiguian

 

O crocodilo do Nilo fuma um cigarro e ao longe escuta o trânsito interminável. Anna Boghiguian também fuma um cigarro, pisa em seus quadros, produz seu trabalho num prédio alto que flutua acima do Cairo. Sua pintura é uma releitura bruta de uma nômade que decidiu falar do caos pintando o caos.

Egito dourado marrom amarelo, cortado por um rio que serpenteia sempre místico e é berço. Foi berço de Anna. Quando ela estudava artes convenceu-se de que não desenhava bem. Mas é que desenhava diferente. Como se sua mão fosse guiada não pelos nervos mas sim pela caótica sinfonia citadina.

Anna é caótica, não para um segundo, e trabalha sob influência de cada uma das cidades onde está. Então espere violência e resolução. Nas cores cruas e nos traços fortes, como rasgos, Anna projeta sua impressão poética. É como ser atingindo pela poeira do deserto bem no centro dos olhos, como estar ombro a ombro como uma multidão multicolorida. São pinturas que exaltam a qualidade do sujo e seu poder de reter experiências.

As pinturas não oferecem apenas uma interface do caos, mas também dão lugar ao texto. As peripécias poéticas tem também esse jeito de trânsito atravancado, de força no pé do freio. São textos que exigem um decifrar e que oferecem mais pontes para entender porque as obras são feitas de babel.

“Toda água era doce para o egípcio, mas sobretudo aquela que fora tirada do rio, emanação de Osíris”, escreveu o poeta Gérard de Nerval. A água doce como favo de mel. No trabalho que desenvolveu para 31ª Bienal de São Paulo, Anna fez desenhos em cafés e bares ao longo de rios, como o Nilo, Ganges, e Amazonas, inspirando-se em todos os movimentos e trabalhos que dependiam dessas nascentes. Do lado desses desenhos, instalou favos de mel e colmeias, representações do trabalho hora democrático, hora totalitarista desses insetos, bastante representativo do estado político do país onde nasceu.