Asger Jorn

 

Asger Jorn, cachimbo na boca, a motocicleta ruminando, uma névoa acidulante nos olhos claros. Quando desenhou Experiment with Automatic Drawning, ele pediu aos seus amigos, que orbitavam ao seu redor atraídos por um irresistível rebeldismo, que acentuassem em sua obra formas que lhe chamassem a atenção. O resultado foram formigas, seres abstratos, um reflexo da psique. A pintura sempre uma possibilidade.

Experiment with automatic drawning

Eu também vou destacar em suas obras o que me cativa, comovida pelas mesmas cores, pelo ácido que pinga ininterrupto das telas. Elas não dizem nada; estão em permanente estado de sudorese, o líquido que saí de seus poros tem o gosto agridoce do desafio à visão. Eu vejo verdes cachorros alucinantes, monstros perturbadores e frenéticos, humanos que não terminam e nem começam. A genialidade esperta e indômita das crianças.

Foi como criança que Jorn tateou por uma Europa que reconstruía não sem dificuldade uma identidade artística pós-guerra. A Dinamarca onde ele cresceu concentrava uma verve única, de artistas que não tinham muito contato com outros países e retroalimentavam uma cultura nórdica e autêntica. Jorn, depois de estudar muito seu próprio lar, pirou pelo mundo. Estudou abstração e surrealismo com mestres dos estilos. Os seus primeiros desenhos tinham já uma marca irônica, derradeira, de contravenção. Já eram irresistíveis.

Preocupava-se com a libertação da pintura e isso comia suas noites. Apostava nos acidentes das linhas e das formas, rompendo com tudo, como que soltando sem medo a tampa de uma panela de pressão. Uma desfiguração não violenta, onde Jorn experimentava para dar ao espectador sempre a opção de escolher.

Foi um dos criadores do grupo COBRA, reunião vanguardista de artistas que acreditava na abstração que provinha não do pragmatismo, mas sim de uma força espontânea, muito similar a das crianças, que ao invés de estarem preocupadas com o que põe no papel, preocupam-se somente com o ato de fazê-lo. Lutava contra as instituições burocráticas de arte e quando recebeu um prêmio do Gugghenheim Foundations, recusou-o categoricamente, mandando que fossem para o inferno com seu dinheiro.

O moderno não mudou sua percepção da raiz e da importância de olhar para as origens. Dedicou-se a entender a arte nórdica e montou um acervo de mais de 10000 fotos com objetos pré-históricos, documentando-as não somente por seus fins arqueológicos mas como fonte inesgotável de pensamento poético. É esse o trabalho apresentado na 31ª Bienal de São Paulo.

Jorn dizia que nunca queria ser explícito. Com um pincel de ácido sulfúrico ele derrete nossas retinas, polvilha as pálpebras para a desfiguração. A violência de um monstro que invade uma casa somente para sentar no sofá e fumar um cigarro.

Tags, , , , , ,