Christian Boltanski

 

O escritor Milan Kundera já discorreu sobre a alma. A alma pode ser leve, mas seu peso também é insustentável, porque as memórias vão recheando-a, um bolo, um ensopado que é real e inventado. O artista Christian Boltanski sustenta-a, em um dedo, em sua obra. É uma luta perdida. Nesse ringue, tudo é derrotável, a alma pousada no murro, mas não há como vencer a morte. “Minha obra é o fracasso”, o artista sentencia.

O pai judeu e a família tiveram que viver dois anos debaixo da escada para refugiar-se da guerra. O francês Christian nasceu nesse precipício entre liberdade e súbita morte. Mesmo quando a guerra tinha terminado, ele e toda família dormiam num mesmo quarto, unidos pelo medo. A casa foi o mundo, e não saiu dela até ter dezoito anos. Gosta de pensar que o positivo de ser artista é transformar algo mau e bom. Enquanto outras crianças esfolavam os joelhos na, Christian brincava com memórias.

E as memórias que o interessam são as pequenas e as dos outros. É um terreno fértil de documentação, mas também de ficção, pois a mente encuba e transforma o que se lembra. Em muitas entrevistas o artista afirma a maravilha que seria poder ouvir todas as pessoas do mundo, porque todos tem algo a ensinar, e todos são apaixonantes.

Como isso seria literalmente impossível, ele dedica-se a escutar alguns e construir cidades de memória. Os objetos que usa capturam o tempo o quanto podem. Fotografias, roupas e datas viram instalações com movimento e que contam uma história. Christian trabalha para provocar e para que o que criou fique sempre impregnado na memória. A memória que toca diretamente a memória.

Às vezes é triste: Quem são as crianças do trabalho Monument: Les Enfants de Dijon (1990), sublimadas, coroada como uma luz quente? Não são menos melancólicas que as roupas de Les habits de François C (1971), emolduradas em pequenos quadros, como para nunca serem esquecidas. Mas há também esperança, encapsulada numa ilha tão distante que podia ser de mentira: Numa sala, está Les Archive du Coeur (2011), uma coletânea de batidas de coração que Boltanski mantém.

Quando chegou em São Paulo para montar uma instalação no SESC Pompeia, Boltanski ficou surpreso com os prédios e as pessoas que circulam entre ele. O caos da cidade é conhecido, mas não tanto a história de seus habitantes. Então o artista recriou prédios, cobrindo-os com páginas de lista telefônicas. As luzes que iluminam a instalação piscam, como olhos, como tempestades, ou como as batidas de coração. O som é o de vozes e de carros.

Boltanski caminha numa terra habitada por fantasmas, traças e fotos já perdidas. Dá nome a tudo, pois é o jeito de dar vida. “Toda a minha obra foi lutar contra a morte, do começo até agora”. Sim, é luta perdida. Mas o peso da alma se torna mais sustentável se você vive na memória de alguém. E no fim, tudo desaparece.

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