Edward Hopper

 

Todos os corpos que se esbarram ao meio-dia, a profusão de chapéus e saltos, não estão lá. No lugar, a calçada deserta, o homem que senta à beirada dela, com os braços cruzados. Ele fuma inconsolável, ou talvez cansado. O trabalho de Edward Hopper (1882 – 1967) encarcera a incerteza em figuras humanas solitárias, em constante anseio, sempre com os olhos voltados para pontos que o espectador curioso não pode alcançar. A América pós-guerra, pretensiosa de grandeza e ufanismo, está tão abandonada quanto a mulher que encara nua a janela.

Quieto, taciturno, com mais facilidade de expressar-se pintando do que falando, Hopper desenhava com precisão arquitetônica suas paisagens, transferindo fielmente os lugares que escolhia para pintar. Entre 1906 e 1910, fez incursões até a Europa e foi profundamente influenciado pela arquitetura dos casarões. Sua cidade natal, Nyack, também se lançou sobre o seu modo de pintar lugares e casas.

O diretor Alfred Hitchcock ficou eufórico ao ver a casa de House By the Railroad, pintura de 1925. Foi categórico ao pedir que fizessem uma cópia da mansão para ser a morada de Norman Bates em Psicose. “Nada poderia ser mais isolado”. Hopper dizia que a temática da solidão que encontravam em sua obra era exagerada, mas reconhecia também sua grande dificuldade de lidar com os assuntos humanos e que isso poderia ser passado para as pinturas.

É também solitário ser o espectador, voyeur de cenas encerradas no mistério do que poderia acontecer após o que foi pintado. Em Night Windows temos a visão área, tal qual teria um pombo curioso, da mulher envolta na toalha, pálida, levemente iluminada. O que faz ela, porque está agachada, quão frio é que balança a cortina. É quase como se Hopper pedisse que alguém inventasse uma história.

“Deus era o tédio”, disse Sinclair Lewis no romance Rua Principal sobre a época de desespero e opressão dos anos pós-guerra americano. O tédio também eram as aves noturnas do mais famoso quadro de Hopper, iluminados pela luz única que desenhava as superfícies, holofotes de figuras comuns. Como andar até a esquina e observar as pessoas no café.

Texto: Cecília Garcia

 

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