Ernesto Neto

 

A escultura não precisa ser rígida, pode escapar num maleável esconde-esconde da dureza do monólito. Ela pode ter as ramificações de uma árvore, a leveza de uma sacola de plástico e tomar como musgo um espaço, transformá-lo, fazê-lo um lugar para brincadeira. É para afagar, as obras de Ernesto Neto, é para meter os dedos, é para entender o dengo.

Ernesto Neto tem em sua obra uma reflexão dos tecidos, suas junções e elasticidades; tecidos todos, a teia da aranha, a pele humana, a malha de lã. E ser aranha humana e engenhosa é entender que, antes de qualquer estrutura inteligente que possa ser construída, tudo está sujeito a força da gravidade. Suas esculturas e instalações desafiam a gravidade, mas também com ela bailam um balé de materiais pouco comuns, que invocam revestimentos e texturas.

O artista faz uso do náilon, meias elásticas e do crochê. Cada obra tem uma relação de simbiose com o espaço que ocupa, e verdadeiramente toma conta do lugar, criando um bioma de elasticidade e sedução. Um lugar para não pensar, para não entender. Um lugar onde nosso corpo todo é ponta de dedo, sensível aos relevos e as cores, à possibilidade de entrar em uma selva que pertence ao plano da imaginação e do desejo.

A influência dessa escultura feita para interação e abstração vem um pouco do movimento neoconcretista, que rompeu com o dogmatismo do movimento concreto para ser bambo e serelepe, apostando na intuição como forma de criação. Mas vem também da vida e de um olho que, como Ernesto mesmo diz, enxerga escultura em tudo.

Ernesto Neto queria ser astronauta quando pequeno. Ouso palpitar que conseguiu mais; conseguiu ser fazedor de planetas, cujas complexidades residem no nó frouxo do crochê e no afago dengoso em uma escultura que pinga do teto. É um planeta do cafuné, planeta em que ninguém se negaria a viver.

 

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