Fernando Pareja e Leidy Chavez

 

Dois corpos que se encontram; eles são tímidos, estranhos, como crianças num quarto escuro, tateando-a a procura de um interruptor que não sabem se existem. São humanos, mas não é possível ser só humano. Rastejam minúsculos, cachorros na rua, abandonados a revelia de que o corpo é sempre ação, é a ação apreendida da observação de que o universo é construtor do interior e exterior. Podia ser uma obra, mas foi o encontro entre os artistas colombianos Fernando Pareja & Leidy Chávez.

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Quando casal se encontrou, na universidade de Popayán (Colômbia), percebeu que lhes interessavam-se exatamente a mesma coisa – o corpo. O corpo como uma matriz de qualquer criação possível, e também como impossibilidade de criar sem que o corpo reflita as experiências externas, a derme um imenso e maleável espelho. Dividindo a casa, eles passaram a experiência de estar sempre confortáveis em suas próprias peles, e como um Geppeto sem intenção de dar vida, eles começaram a moldar.

Há algo de bibelô, de doméstico, de Tumbalina no universo criado pelo casal; diminuindo o corpo diferente a um mero objeto decorativo em casa, o casal de artistas propõe (impõe) uma aproximação e rompedura de realidades, operando por duas frentes: o lúdico, que nos força a olhar as obras como se olha também um brinquedo, portanto passível de todo o nosso manejo, mas também o grotesco, que causa o espanto e atraí; a armadilha pontiaguda que prende o coelho. É brincando nesse universo que eles realizaram sua primeira exposição, Alicia en el país de las maravillas.

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O corpo como espelho reflete a violência, a opressão, que cresce exponencialmente e atinge o indivíduo agente e o indivíduo causador. Entendendo que a pessoa é refletor do bombardeamento midiático, o casal aventurou-se em técnicas rudimentares mas encantadoras de cinema para criar micro-ações, micro-tristezas, micro-desaparecimentos. Na obra Opresores Oprimidos, os que oprimem e os que são oprimidos caem em buracos negros sem retorno, num animação que é estranhamente lúdica como um carrossel, mas também triste como todo fim.

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O casal segue driblando o corpo comum, diminuindo-o para que caiba em nosso polegar, para que se encaixe e quebre, com deformações e alegorias, um estado de entender o corpo como mais do que caixa que carrega uma alma cheia de desejo, e sim agente ativo, político e com o poder de transformar.

Texto por Cecília Garcia