É necessário falar da memória, falar dela como se fosse um bicho querido, de muitas pernas, que caminhasse entre nós. A memória se fosse uma pessoa talvez fosse triste, porque remonta a saudade. Saudade, que é palavra tão do Brasil, que explica a marreta de angústia no peito. A saudade de uma casa que foi sua e que hoje virou um azulejo azul.  A saudade do rio que não se conheceu mas que corre bem debaixo dos pés, silenciado pelo asfalto.

Garapa é um coletivo audiovisual que dá as mãos a memória e com os dedos unidos, desenvolve um trabalho de arquivo e registro. A militância que escolheram foi a do fio invisível mas  inquebrantável que costura as reminiscencias e faz lembrar. Leo Caobelli, Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes também dão as mãos ao termo multimídia, ainda que multimídia encerre um mar de terminologias e desdobramentos. Fotografia sim, mas não só. É toda a sua reinvenção, porque é a fotografia do instante de quem se mexe e tem muito a dizer.

Morar é um projeto multimídia que investiga o desaparecimento dos prédios São Vito e Mercúrio, ícones arquitetônicos de São Paulo e ocupados por uma centena de pessoas. Elas tiveram que partir com pouca coisa e o que permaneceu ruiu na demolição. O projeto Morar lhes deu casa figurativa. Era necessário falar do humano num processo constantemente bombardeado por questões políticas ou imobiliárias.

Talvez nada tenha tanta força num trabalho de memória como a (re)construção de um recurso de preservação. Os daguerrótipos entregam objetos como bichos de pelúcia, troféu de natação, máquina de costura, a um lugar do passado, um lugar de morte, ainda que seja do presente. Mas o presente pode ser morto e continuar a seguir. Se alguém morou em um prédio, é esse alguém que tem que falar quando o prédio morrer.

Não precisa ser humano para ter memória, o rio pode ter também. E tem, o Rio Tietê, que só não passa despercebido por todo o cheiro de descuido. Rio Tietê, através de quem por ele o passou documentando e o viu macio acariciando as margens, que cheiravam ao mangue, caranguejo em papa de pássaro. Como é a memória do rio? São as fotografias de suas passagens e de todos os seus habitantes. Esse é o foco do trabalho A Margem

Em um dos e-mails transcritos do trabalho Dissonante, Vago, o remetente Breno Queiroz assinala que o Brasil está além de qualquer investimento. Talvez porque o Brasil seja a memória de tantos povos e rios e animais. O Garapa trabalha a memória de um País que como um velho, tem muito o que contar.

Tags, , , , , , ,