Giuseppe Campuzano e El Museo Travesti del Perú

 

É um sapato surrado, que dói os calcanhares, coroa prateada e mestiça nos pés. Quem subiu nestes tacos, salto alto na língua hermana, carregou nos ombros a beleza de crisálida, mas também o peso obtuso de não ter sua história escrita em nenhum lugar. Hoje esse sapato tem seu pódio, ao lado da santa puta e da travesti dançante. Hoje ele é parte da indumentária arqueológica, móvel e colorida do Museo Travesti del Perú.

Atreva-se a navalhar a carne careta da história, a abrir a fenda de purpurina e silicone. O drag queen e filósofo Giuseppe Campuzano não se conformava com o o lugar que a história convencional, heteronormativa e moralista reservara as travestis e homossexuais. Construir uma narrativa não era o suficiente. Era preciso ter a preciosidade e cuidado com que se segura um cílio nos dedos. Campuzano começou então a arquivar, buscar e entender toda a trajetória antropológica travesti que formou a história do Peru.

Campuzano resgatou um Peru de sociedades incas que tinham na figura do andrógino um ser importantíssimo e sem igual da cosmovisão indígena. A cultura binária da colonização espanhola veio como uma faca de gume moralista, proibindo a qualidade travesti que transcendia a oposição do feminino ao masculino. Era um medo da pérola, das penas de pássaros e da quase deidade da liberdade de escolher-se ser o que queria.

Fala também da a recuperação da Tunantada, dança típica e popular peruana que faz uma parodia com as noções de masculino e feminino impostas pela colonização. São homens travestidos que dançam com vestidos e máscaras bordadas a mão celebrando a mestiçagem e a ancestralidade indígena

O Museo Travesti del Perú nasce itinerante, com bocados do passado e do presente. Traz as referências da cultura inca, mas também recortes de jornal onde travestis puderam escrever sua história urbana, do caos ao paetê. A palavra museu só reforça o lugar de preservação da memória. É um lugar de história e resistência, onde o que é marginalizado na verdade se torna fio condutor de uma memória de gênero fluido.

 

Mao Tsé-Tung usa batom rubro nos lábios e gosta. As santas sempre se travestiram, performáticas em seus adornos e mantos. Os sapatos de salto alto carregando a vivência de quem os calçou. O Museo Travesti del Perú é nossa história, porque a cultura travesti corre pelas veias da América Latina, purpurina e pulsante. Sua história não é periférica. É central, vital, é de beleza, e arrasa.

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