Gustav Klimt

 

A mulher ruiva está sentada de costas, o queixo sobre o pescoço, brincando de olhar. Para quem olha não se sabe. Talvez sua risada maliciosa seja para os pinceis e dourados de Gustav Klimt (1862-1918), revolucionário por pintar mulheres em sua própria satisfação.

Klimt nasceu próximo à efervescente Viena, um dos sete filhos de um ourives. As entalhações em ouro de seu pai não rendiam muito dinheiro à numerosa família, mas o seu trabalho era esmerado e meticuloso. Tinha por grande desejo que seus filhos seguissem a carreira; um deles o fez, mas três dos rapazes alçaram voo para o campo das artes. Incrivelmente talentosos, o trio Klimt aceitava comissões e trabalhou inúmeras vezes para o governo local e mecenas. O mais vanguardista deles era Gustav.

Embora tenha começado suas pinturas à moda de outros artistas vienenses, logo desenvolveu estilo próprio, evocando sensualidade e feminilidade em uma época em que esses aspectos eram tabus. Percebeu que ser financiado por mecenas conservadores não lhe permitiria explorar o erotismo no seu trabalho. Foi por volta de 1897 que uniu-se ao grupo Secession, um coletivo de artistas vienenses proclamadores de que somente a arte e o amor poderiam salvar o mundo. Tornou-se presidente do grupo.

As mulheres contorcem-se pelos quadros da chamada Época de Ouro do pintor. Claramente influenciado pelas atividades de ourivesaria do pai, Klimt usava o dourado como que projeção da alma da mulher. De olhos semi-cerrados, ruivas em sua maioria, as figuras femininas estão sempre com expressão de prazer. Pintava-as sempre nuas, e quando desejava, lhe punha roupas, adornos de intrincada estamparia, influenciado por modelos de tecido da África e da Ásia. Todas as mulheres têm beleza de certo modo faraônicas. Os poucos homens de seus quadros são coadjuvantes, rostos invisíveis. As mulheres são sempre protagonistas.

Embora a variedade de seu trabalho seja estarrecedora, Klimt tornou-se mais conhecido pelo interlúdio de um beijo dourado e uma cama florida. “O Beijo”, sua pintura mais emblemática, sugere todos as possíveis interpretações, mas é comumente aceita como uma celebração do amor e as preliminares de um ato sexual. O enlace profundo dos corpos, sugerido pela manta que os cobre, ecoa os princípios do grupo onde participava, em que o amor realmente era uma espécie de redenção.

Em seus últimos anos de vida, Klimt optou por pinturas mais sóbrias, sem perder a fascinação pelo feminino. Os seus desenhos, menos conhecidos e mais selvagens, são uma abertura para a sexualidade da mulher, em uma época em que a questão de autonomia feminina era pouquíssimo discutida e o seu prazer, totalmente ignorado pela sociedade patriarcal. Tanto nos desenhos de traços firmes e sexuais e em suas formosas musas em dourado, Klimt foi um apaixonado pela mulher, dando nos quadros a liberdade que não tinham em vida.

Texto: Cecília Garcia

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