É a lacuna; aquele espaço solto entre o voo da águia, a mulher nua, a pedra arremessada pelo gigante. Você pode vagar seus olhos por todos os detalhes, mas o repouso é sempre o vazio. Não é mundo inteiro como o conhecemos, mas contém seus mitos, seus fantásticos e quadrúpedes habitantes, ou só retratos humanos. Antigamente, era minimalista. Mas a arte de Jo Baer tornou-se um movimento antropofágico de referências.

Entre 1960 e 1970, tornava-se proeminente a arte minimalista nos Estados Unidos. Ela era vigorosa e monocromática, e ocupava paredes não permitindo contradições ou recusas. A artista Jo Baer era uma das únicas mulheres a pertencer ao movimento, interessada na criação da poética do nada. Criava molduras para o vazio.

Mas os movimentos artísticos também tem uma vida perene; os pintores desistem, o otimismo é suspenso, os quadros na parede são só quadros na parede, sem significado. O abstracionismo era o retrato de um pós-guerra falido e de uma arte bastante elitista. Jo rompeu definitivamente com uma arte que não mais permitia suas experimentações.

Afinal, havia tanto a ser coletado, um recorte dos mundos. Jo começou então sua perseguição ao que deu o nome de Figuração Radical. Ela não conta histórias, não faz retratos, nem absorve paisagens. É uma enfraquecedora de pinturas. Não se dê ao trabalho de lê-las literalmente, é para os não-literais, para os que lançam lânguidos olhos para simbologia. Como uma açougueira de referências, recorta um braço ali, o pulo do gato pela metade, o recorte para o vazio.

Na 31ª Bienal de São Paulo, Jo Baer apresenta o trabalho In The Land of Giants and Other Works. É uma série de desenhos sobre uma pedra irlandesa que, segundo a sabedoria popular, foi jogada ali por um gigante. É um mergulho desmembrado e denso em referências que são parte clichê do imaginário popular.

 

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