Jonathas de Andrade

 

O Nordeste descascado como uma banana, e que seja a banana mais escurecida, mais saborosa, a que é feita para marmelar. Jonathas de Andrade remexe na caixa, escolhe a banana doce, roça contra a bochecha. A líbido da cidade no macio de uma fruta amarela, fruta já digerida, na memória da mordida. O Nordeste é a polpa, revelada sem clichês.

O Levante

Que não haja enganos. Ainda que o artista Jonathas de Andrade trabalhe com um preciso método de arquivo e catalogação, o passado, o que já foi comido e o que foi construído não constituem fetiches por eras perdidas. Quando se propõe a mergulhar numa memória que é muito mais coletiva que pessoal, o artista trabalha com estéticas não bem aceitas e os seus rastros. É ficção, mas também fricção da regionalidade.

O artista

Recife é a fruta, a plataforma da memória é a recuperação de uma arqueologia da cidade; arqueologia do tesão. Na época que Jonathas nasceu, o Recife já havia abandonado um ideal de modernismo tropical, e os lastros eram como lava endurecida, a miragem do que foi um desejo arquitetônico. É nesses afetos de quinas que nasce a obra Ressaca Tropical, que é um diário amoroso e fotográfico do abandono na cidade que não quis ser moderna.

Ressaca Tropical, 2009

 

É necessário falar do Nordeste, porque existe muito mais nele do que está hermeticamente programado para ser discutido. Claro que você pode falar da praia, da areia branquinha, da força quase heróica dos pescadores ao lutar contra as ondas. Mas você pode também falar de um clube abandonado, que antes servia como entretenimento para a classe alta de Recife e hoje é um lugar clandestino, para homens que se encontram procurando o amor. Este é o tema do trabalho O Clube, uma série de fotografias desse lugar que não sofre a ressaca do mar, mas da saudade.

O clube 2010

Quando um artista se lambuza e também se distancia da sua identidade regional, ele entende que está imune aos clichês, como um mel ao contrário, que repele abelhas. Inspirado pelas leituras de Gilberto Freyre, Jonathas espalhou anúncios em jornais desejando conhecer e montar um registro do homem nordestino. Nasceu daí um o Museu do Homem do Nordestino, um lugar que pede aos clichês que fiquem do outro lado da porta. A construção dessa identidade foi um processo de pesquisa quase sensual, permeado pela intensidade de relatos e relações.

Jonathas-de-Andrade_Cartazes-para-o-Museu-do-Homem-do-Nordeste-[2013]

Na banana, ninguém sabe, existe um coração. É uma polpa roxa que fica acima do cacho e quando aberta, libera um odor de carne adocicada, de algo que só pode existir se colocado na boca. A parte não clichê da banana. A parte não clichê do Nordeste, Jonathas se propõe a registrar, não como um ato de saudosismo, mas pela descoberta pessoal de desafiar o que já foi determinado.

 

Texto por Cecília Garcia.