Juan Pérez Agirregoikoa

 

As palavras desenhadas num carvão difuso são claras: Você está prestes a entrar em um mundo de dor. Essa dor não é física. É o incômodo de perceber que as rédeas que seguram as pessoas nos jogos de poder são duras de roer, é preciso caninos de cachorro, mas definitivamente não sua obediência. O artista Juan Perez Agirregoikoa brinca com a inconstância da verdade e dos símbolos de controle, em flashs de palavras absurdamente irônicos.

Steve Seagal é violento, mas é do bem; o capitalismo é fabuloso; corte um árvore; rejeite a cultura. Com pequenos deslocamentos de palavra, a delicadeza e destreza da mão do jogador sobre o peão, Juan usa a psicologia invertida para a provocação. Existe quem que vá ao museu para divagar, limpar a mente. Mas frente a obra de Juan, não é possível. É um estado de instigação intenso e desestabilizador, para que ninguém passe incólume.

É necessário humor para trabalhar com verdades que já se engessaram de modo tamanho que se tornaram universais. As pretensões de Juan são para antes do trabalho, quando o raio da provocação o atinge. Quando ele brinca com a percepção do ler e do aparente conforto que ela pode causar, ele já doou sua obra e ela não faz mais parte dele como também não o faria um cílio caído. E rir de si mesmo é fundamental nesse processo.

O psicanalista Jacques Lacan falou uma vez aos seus alunos que em sua busca por revoluções, eles estariam procurando por um mestre e que com certeza o achariam. O trabalho de Juan revira bastante as estruturas do poder e do controle. Na sua obra Quer um mestre? Você Terá!  ele enfileira cachorros e supostos donos numa aquarela crua; essas relação de dominação, de submissão sorridente, não é muito diferente das relações formadas em torno das hierarquias. E abanamos o rabo.

Na 31ª Bienal de São Paulo, o artista que ri de si mesmo apresenta uma releitura de O Evangelho Segundo São Mateus, de Pasolini. Filmado na periferia de São Paulo e tocando nas relações frágeis do fracasso e do sucesso do capitalismo, ele exibe o filme Letra Morta.

Texto por Cecília Garcia.

 

 

 

 

 

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