Julia Panadés

 

O mel das abelhas, que era doce, mas não forte, derreteu-se todo. As asas de Ícaro começaram a derreter. Caiu ele, caíram as penas, caíram seus sonhos. Quando a desenhista Julia Panades fala que entre os desenhos de sua obra, seu favorito é O Primeiro Voo, penso que no primeiro voo todos caem. O pássaro que é filhote, o Ícaro que não tem medo do sol, a linha que deixa rastros no papel. Tudo cai para depois ascender. A queda é boa.

Julia Panadés desenha. Se não está desenhando, está lendo. Na sua obra, a palavra é casa do desenho, o desenho é vestido com palavra. E tudo habita o corpo. “Gosto do corpo, é como o mistério movente”. E embora abertos e vermelhos, as costelas expondo frágeis órgãos e costuras, os desenhos de Julia não revelam segredos. São suas incubadoras, gestantes das coisas que doem, das coisas que permanecem.

O corpo é feito de linhas; há como enxergá-las por todas as partes, elas são verdes, transparentes na pele do pulso. Também são vermelhas, as que interligam os músculos, as que sangram quando acontece um machucado. E tem as linhas do tempo, que vem devagar, mas não vão mais embora. São as linhas que transformam o rosto em papel e os cabelos em fios brancos.

E as linhas de Julia formam livros, que é o caminho natural da linha e da palavra. Enquanto vasculhava cada um dos livros virtuais, senti como se minhas mãos estivessem embebidas de fios vermelhos, como no livro Poemia Contagiosa. Ou como a obra Imagino Veneza, onde as palavras parecem nadar úmidas num rio lodoso de perguntas: como se morre em Veneza, como se enterra algo em Veneza, é Veneza a cidade ou a imaginação da cidade? São livros que não contém afirmações. É tudo pergunta, é tudo um caminho. Basta seguir.

Há uma obra de Leonilson, artista que escrevia desenhando, como Julia, que se chama Homem com Fogo nas Mãos. O fogo é um coração deformado, não se sabe por quê. Imagino a obra de Julia dessa maneira; uma pergunta, o corpo aberto, como uma flor carnívora, que come órgãos e regurgita questões.

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