Lygia Clark

 

Era tudo o corpo, e o corpo que se envolve com outro corpo, o de metal, o que ela construiu. A obra, que sempre foi seu espelho íntimo, não é somente objeto. Isso ela e Oiticica defendiam ferrenhamente, com seus Parangolés e Bichos. A obra é símile do orgânico. A obra é mais próxima do líquen, da arara, de tudo que se move e expira. A obra de Lygia Clark é para o corpo. Ver Lygia pela máscara do abismo.

Andava com gigantes. No grupo de Neoconcretos, Hélio Oiticica, Lygia Pape, Reynaldo Jardim. Eram contra o reducionismo, a máquina, a arte científica. Não abandonaram a geometria, base do Construtivismo, mas deram às pontas quadradas e aos círculos vida. A arte tinha que ser intuitiva e subjetiva. O orgânico era o impulso e a arte brasileira moderna ganhava contornos de um corpo sintético, um coração invisível.

Ela que começou com os olhos migrou a obra para toda a extensão do corpo. Na antropofagia característica da época engoliu glutona influências europeias e toda a quentura tupiniquim. Na pintura eliminou molduras. Em séries como Unidades (1958) e Casulos (1959) permitiu a migração dos espaços, mas abandonou rápido o silêncio dos quadros. Nasciam os Bichos.

As estruturas de metais maleáveis, feitas para serem tocadas e conduzidas, mudaram as relações obra/espectador, bem como a noção de acervo. Ela escreveu: “O Bicho tem um circuito próprio de movimentos que reage aos estímulos do sujeito. Ele não se compõe de formas independentes e estáticas que possam ser manipuladas à vontade e indefinidamente, como num jogo. Ao contrário. Suas partes se relacionam fundamentalmente, como as de um verdadeiro organismo, e o movimento dessas artes é interdependente [...]”.

Ao preterir o objeto a todas as outras formas de expressão, a artista tornou-o uma preposição e desafiou seu lugar no sentido da coleção. O Bicho só existia enquanto manuseado. Suas esculturas progrediam, tomando então formas do corpo. Suas Máscaras Sensoriais (1967) vendavam os olhos e evidenciavam o espaço que existia dentro, o vazio momentaneamente preenchido. Em Baba Antropofágica (1973), o corpo é moldado por carreteis de linhas, é depósito, é casulo.

Seus últimos trabalhos tinham propriedades terapêuticas, embora Lygia não tenha se formado na área. Objetos Relacionais (1976) eram usados em um processo terapêutico em que a pessoa se deitava num grande Objeto. Os olhos e os ouvidos eram cobertos com conchas do mar, para facilitar a interioridade. Objetos são colocados no corpo do individuo, e permanecem. A experiência é de silêncio e gestos.

Pouco a pouco o olhar sobre a obra de Lygia, ainda que tardio, se fortalece. O corpo físico e inexistente da artista transita suave pelas raras, mas poderosas exibições de sua obra. É o espírito imorredouro que se dobra a cada fenda do metal. “Nós somos os propositores. Nós somos o molde, cabe a você sobrar dentro dele o sentido de nossa existência”.

Tags, , , ,