Manifesto do Sim

Nos últimos 4 séculos, demos início ao processo de compartimentação das áreas do saber para melhor compreendermos o funcionamento das coisas da vida. Separamos religião, ciência, arte, filosofia e política em porções autônomas, acreditando que o estudo especializado de um único tema potencializaria nossos instrumentos de observação da realidade. Percorremos uma longa linha de abandono gradual das tradições que fundaram os alicerces do que interpretamos hoje como sendo nosso mundo.

Separamos, dividimos e classificamos mesmo os mais ínfimos fenômenos que compõem nosso cotidiano. Logramos entender o funcionamento das partículas e do tempo. E quanto mais nos especializávamos, menos acesso tínhamos à outrora ampla visão de conjuntura que em tempos tidos como primitivos se cultivou como a fonte da sabedoria.

Agora são outros tempos. Depois de tão profundamente estilhaçada, a personalidade escorre seus pedaços em vias de reintegrar-se. Completamos subjetivamente a tarefa da individuação por vias paradoxais: segregamos nossas emoções e compartimentamos nossas relações sociais em microesferas não-conectadas no intuito de compreendê-las completamente. Agora, é hora de religá-las num todo coeso: homens e mulheres juntando outra vez suas partes. Reintegração. Comunidade. Reunião. Depois de tanta análise, agora é tempo de síntese.

Já decompomos os átomos. Já desintegramos a moral. Durante 5 décadas __ como se entrássemos em silencioso acordo quanto ao semifracasso do projeto humano nos últimos 2 mil anos __ aceleramos exponencialmente o processo de desconstrução de nossas bases culturais: relativizamos mesmo o mais seguro instinto cru, a verdade.

Já não precisamos mais disso. Podemos, com o sentimento firme de missão cumprida, absorver o perspectivismo proporcionado por esse percurso e decretar neste exato momento: é o fim da pós-modernidade.

Agora é possível fazer as pazes. Entre o céu e a terra, entre o homem e a mulher, entre exatas e humanas, entre matéria e energia. Entre direita e esquerda. Sim. Síntese.

A metrópole é um reflexo desse movimento do corpo individual que trabalha por reorganizar-se: o organismo vivo do coletivo passa igualmente pelas contrações ora dolorosas desse reajuste inevitável rumo a um reencaixe harmônico. Os rios soterrados pelo concreto querem reemergir. As cachoeiras encobertas por calçadas desaguam outra vez no imaginário cidadão. Os espaços ociosos da cidade de São Paulo estão sendo ocupados pela população livremente organizada em células independentes, como os membros de um grande corpo buscando reconectar-se para caminhar com equilíbrio. A formação crescente de ateliês e laboratórios compartilhados, onde artistas produzem, descansam e se alimentam livres da mediação estatal e do dinheiro colabora por criar uma cada dia mais bem distribuída rede de hospitalidade urbana. Como clareiras em meio à selva, os espaços outrora inúteis vêm sendo ressignificados a cada dia. Geram arte, esperança, olho no olho. Geram ideias e geram ações, porque servem para gentes e ideias circularem e se conhecerem arejadamente.

Já não precisamos do hegemônico ponto de vista econômico para interpretarmos nosso dia-a-dia. Sabemos que nossas relações de troca superam a numerologia das mercadorias. Já não precisamos sermos representados por grandes categorias, ou mesmo classes sociais separadas. Ninguém nos representa, porque nós mesmos nos apresentamos aqui e agora. E já estamos consolidando os laços dessa nova comunidade. Para qualquer ação que tomemos, convocamos uma assembleia pública de democracia direta em plena praça. Somos nossa própria mídia. Somos poucos, somos inúmeros: o instinto tornou-se mais confiável que as estatísticas, e o fluxo espontâneo mais potente que as sinalizações das vias.

A guerra pacífica já começou, e é cada dia menos sutil. Em junho deste ano uma batalha declarada terá início: todas as câmeras do mundo estarão voltadas para nós. Voltemo-nos para elas e contemos a verdade. A Copa do Mundo está aqui para ser derramada, e todos poderão beber dessa água revigorante. A sorte está lançada. E está do nosso lado. Porque o outro lado não existe: é apenas o espelho gasto de um mundo velho que se desmancha aos poucos. Essa batalha nasce esquizofrênica porque não há inimigos; nasce esquizofrênica porque nossas armas são a paz. Não precisamos de metralhadoras, bandeiras ou nomes. Precisamos apenas estarmos firmes e presentes em nossos corpos honestos. Alinhados ombro a ombro com a enorme canção espontânea que brota da vontade de viver melhor.

Se eles têm helicópteros, nós temos sinceridade. Se eles têm escudos, nós temos flautas. Se eles têm tanques, nós temos sincronicidade. Se eles têm canais de televisão, nós temos telepatia. Se eles têm opinião pública, nós somos o público. Se eles têm o governo, nós nos autogovernamos. Se eles conduzem as notícias, nós ativamos nossa memória. Se eles são eles, é porque ainda não se lembram que somos todos nós.

Não precisamos de marchas contra a corrupção, contra a violência, contra a manipulação, contra nada. Marchar é coisa bélica: nós celebramos. Não negamos mais: nós propomos. Nosso ponto de partida agora é outro. Nosso ponto de partida agora é o sim. Vamos às ruas pela primeira vez para trazer as boas novas: é possível viver bem. Não reclamamos do passado __ foi como devia, e acabou. Agora vamos às ruas para dizer ao mundo que estamos reconstruindo nossas vidas depois de tanto tempo sem saber o que fazer. Sabemos o que fazer, e estamos fazendo. Repovoaremos o asfalto quente com árvores frescas. Plantaremos hortas comunitárias em pleno centro comercial. Rebatizaremos os nomes impronunciáveis de nossas avenidas. E sim, já estamos utilizando prédios abandonados para tecer uma sólida malha de ajuda mútua. Não queremos mais fugir da Babilônia porque transformaremos essa antiga civilização num próspero jardim. Nunca tive tanta esperança em toda minha vida. Porque já não preciso acreditar: estou vendo acontecer.

O Brasil reúne condições únicas nesse cenário: terra de muitas linhagens pulsando histórias ancestrais e ainda assim aberto à bem-vinda e incessante novidade. As palavras de Oswald de Andrade sobre o homem primitivo tecnicizado agora encontram reverberação: de pés descalços na grama e Iphone na mão, podemos utilizar todos os recursos dos corpos naturais e artificiais para trabalharmos na costura dessa grande rede que se expande rumo à integração harmônica. Quilombolas, coletivos urbanos, indígenas, movimentos sociais, poder público, gente humana, todos: reunamo-nos.

Este manifesto é uma chamada. Para que as tribos se encontrem. Para que os clãs se reconheçam. Para que nossas relações sejam integrais e nutritivas. Para que nossos gestos sejam íntegros. Para que nosso corpo social seja inteiro. Reintegrar os espaços da cidade para que voltemos a nos encontrar pelas ruas a céu aberto, sem pagar por isso. Toda a movimentação por novos espaços na cidade resume-se a uma saudade: pontos de encontro. Depois de gerações dentro de casa, decidimos sair outra vez às praças, parques e ruas para compartilharmos. Para conversarmos e cantarmos. Sintetizar nossas ações para que sejam coerentes àquilo que nos traz alegria. Por uma vida mais lírica, suave e poderosa.

E uma alvorada bem-vinda.

imagem: Martha Barros – Inventando como as pedrinhas

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