Mapa Teatro – Laboratorio de artistas

 

A violência às vezes se transveste de festa. Ora, você não vê a semelhança, a comoção de corpos, o desespero dos fluídos, a invasão e transmutação de um lugar de paz para um lugar de agito? A violência às vezes se disfarça de teatro, ou o teatro precisa ser violento, armar-se para comover. O Mapa Teatro – Laboratorio de artistas violenta as inventividades teatrais para destrinchar micro-universos políticos. Afinal, a Colômbia é logo ali e aqui.

Mapa Teatro nasceu dos criadores Heidi e Rolf Abderhaldes. É um laboratório de transgressões, contenções e provocações. Fazendo uma releitura de textos teatrais, o grupo se apossa da realidade colombiana para inventar. É quase como o nascimento de um universo novo dentro de um universo completamente conhecido, que causa, por conseguinte, bastante desconforto. E é um assalto, no sentido súbito e literal da palavra, as tantas plataformas que o grupo utiliza para construir suas narrativas.

É preciso ter a inventividade, contar com as hipérboles do realismo fantástico, como se García Márquez houvesse impregnado também outras festas além daquelas que fazia literária e absurdamente em Macondo. O Mapa Teatro faz de toda festa, ainda que não alegre, um carnaval para os sentidos, que faz o público rir, mas também sem graça consigo mesmo, por esse destrinchamento que ele escolheu assistir. A humanidade pungente dos acontecimentos é usada de modo muito delicado e assertivo, trazendo personagens reais para situações fictícias.

Além do campo teatral, Mapa Teatro se inteira na cartografia das cidades colombianas, enxergando na rua um palco muito fértil para apropriação e discussão de política. Em Testigo de Las Ruinas, por exemplo, o grupo utiliza uma linguagem multidisciplinar para contar a tenra e surreal despedida de uns dos bairros mais emblemáticos de Bogotá.

Para a 31ª Bienal de São Paulo, o Mapa Teatro traz um tríptico de suas mais recentes montagens, que constituem uma anatomia da violência colombiana; nesses três espaços, reside um arquivo das peças, quase como que os confetes largados no chão no fim do aniversário. Discurso de un hombre decente mergulha na tríade narcotráfico-violência-Pablo Escobar, utilizando o último como protagonista desajeitado e cômico da história. Los Santos Inocentes convida a uma festa acabada de dicotomias, como festa/massacre, verdade/mentira e realidade/ficção. Por fim, Los Incontados leva o espectador a uma festinha de criança, cuja única voz é a de um rádio insistente que diz que a revolução é uma festa.

Umas das falas que mais chamou-me atenção quando participei do debate com os curadores da 31ª Bienal foi da curadora Galit Eilat. Ela disse que quando um curador entra em um prédio e o imagina, ele comete um ato de violência contra a estrutura. E que a Bienal seria sobre  violência e suas positividades. Mapa Teatro constituí-se no corpo teatral dessa provocação, alarmando a percepção e trazendo a festa política para dentro de nós.

Texto por Cecília Garcia.

 

















Tags, , , , , , ,