Nurit Sharett

 

Contar histórias é, invariavelmente, contar sobre coisas que não existem. Ainda que as narrativas sejam verdadeiras, elas babeiam também na superfície da ficção, pois ao serem engolidos pela percepção de quem as fala e de quem as escuta, elas se tornam registros flutuantes e passíveis de interpretações diversas. E mesmo que contemos histórias de nós mesmos, contamos histórias que passaram pelas variações do afeto. A artista israelense Nurit Sharett se apropria da fricção da realidade e da ficção para remontar identidades.

Afinal, Israel é um terreno fértil de conflitos e de contradições, e as histórias de quem nasceu lá geralmente levam cicatrizes de muitas profundidades. Com Nurit não foi diferente; ela resolveu então sua própria narrativa em vídeo, mixando-a com a história da formação de Israel. Não comercializar sua arte, e financiá-la por meio de bolsas e de editais, é um modo de continuar a ter a liberdade política para falar sobre o que quiser.

Em The Sun Glows over the Mountains, Nurit serpenteia pelos largos galhos de sua árvore genealógica, recontando a história de seus pais, nascidos palestinos, e também de seu avô, que participou da diáspora israelense e ajudou a construir o Estado de Israel, mas perdeu posto como ministro quando se opôs ferrenhamente contra a Guerra do Sinai. Já em H2, Nurit conheceu a região de Hebron, que é dividida em duas sessões: H1, ocupada por israelenses, e H2, ocupada por palestinos. Foi entre as mulheres de H2, que são suas alunas, que Nurit captou os percalços e privações que sofrem os palestinos na região.

É sem perder suas origens que Nurit chegou ao Brasil para realizar o vídeo Counting the Stars, apresentado na 31ª Bienal de São Paulo. É uma jornada de descobrimento do olhar estrangeiro, mas com um objetivo específico – falar sobre os anussim, judeus forçados a se converter ao catolicismo pela Inquisição Portuguesa e que se refugiaram aqui. É nivelando os depoimentos que Nurit consegue fazer com o que o vídeo tenha uma força poderosa, além da veracidade ou inverossimilidade dos fatos.

Vestir o véu, cruzar as fronteiras, queimar-se em outros sóis. Nurit leva a contação de histórias a uma tensão pungente, simplesmente pelo fato de compartilhar as suas, tão intimamente, a todos os transeuntes da 31ª Bienal de São Paulo.

Texto por Cecília Garcia

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