Olafur Eliasson

 

Um homem pôs um sol dentro do prédio, ligando um cósmico interruptor. Não é o sol astral, mas quem define o que é o sol? As pessoas se esparravam debaixo da bola amarelada, engoliam a neblina, sentiam o rosto torrar de onde não vinha calor. Uma aurora que nunca termina e o universo que pode ser moldado nas mãos, caber em qualquer lugar, dentro da retina. O artista Olafur Eliasson diz que fazer arte é uma responsabilidade. A responsabilidade do menino com a lupa sobre um cubo de gelo.

The Weather Project, 2012

Ele divide a lupa com você, então tome seu tempo. O mundo de Olafur nada mais é um instigamento a conhecer o que orbita dentro do nosso espírito. Em seus trabalhos de escultura e instalações, o artista dinamarquês busca a beleza da luz que incide, também sua fugacidade, o mistério do planeta. É um trabalho feito para habitar muito mais do que museus.

Your embodied garden, 2013

Olafur acaricia languidamente o olhar com um caleidoscópio macio. Não é um trabalho de inspiração súbita e inconstante. É uma minuciosa e precisa pesquisa científica, que leva o artista a descobrir quanto tempo a luz demora para alcançar um ponto, como é possível transformar um rio em verde lodo. O preciosismo de seu trabalho se dá pelo fato de que ele só alcança sua plenitude quando invadido.

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Uma espectadora escreveu sobre a obra Riverbed, que consiste em transformar o museu em uma paisagem rochosa: Me sinto com um dragão de Komodo. Rasteja os pés, a barriga empoeirada, sente menos dedos e mais garras. Como é manter o balanço, como é perdê-lo? Não tem nada a ver com ser primitivo, pois o primitivo não existe, o animal não nos abandonou, os pés ainda se dobram para não sucumbir as pedras. E Olafur observa o abandono do corpo.

Riverbed, 2014

Foto: Riverbed, 2014

Os olhos se dobram como joelhos a inesperada beleza; o que fazer, se no meio das pontes da cidade brotam cachoeiras, como se nunca não houvessem existido? E se o gelo se transforma não é para água, não é em um rio, e se for em rio, é de espelhos, de tantos vocês e tantos eus, da leitosa compreensão de que estar dentro da obra é nunca ter estado fora dela. A beleza é essa gelatina que cobre a retina. E você escolhe o que é ser belo.

Olafur Elliason em seu ateliê

“Nós devíamos dançar em êxtase por estarmos vivos e em carne viva, e sermos parte do vivo e encarnado universo. Eu sou parte do Sol como meu olho é parte de mim. Eu sou parte da terra que meu pé conhece perfeitamente, e meu sangue é parte do mar”, escreveu D.H. Lawrence, e parecia escrever sobre o futuro em que um artista entendia o dever de unir o corpo do espectador e da obra, como que plantando-o novamente no universo.