Esses reis, não se sabe quem os pôs no trono. O cão, talvez. O babuíno, com os olhos de ardósia, que parece desafiar, que África é essa, que se pensa que conhece. Não conhece. Na África do pintor senegalês Omar Ba, quem dita as regras são as coisas que tem alma. Gigantes sentados, peixes que não nadam, a besta domada.

Ele pega a tela e a pinta toda de preto; o preto é o refúgio da cor. Os majestosos painéis, se tivessem dedos, abriram com eles as pálpebras, janelas para o sincretismo entre um continente mítico e um que cresce moderno. Tem rei nessa selva erguendo cidade de pedra. O homem tem alma mas é perdido. Ele é muito grande, reinando em tronos adornados. Ou ele é pequeno, montando um animal inverosímel. Híbrido de homem moderno com a natureza.

O bicho tem alma. O bicho tem a aura de um poder místico, como se cada figura pudesse falar de um tempo que se desconhece, mas que é o o tempo em que os espíritos selvagens habitam. Que diz o camaleão rosada com a sua pata erguida? A ovelha está na cara do general, então quem é que assume o comando?As caóticas coisas que Omar Ba espalha nos quadros invertem a ordem natural do mundo para falar dele mesmo. Homens e animais, senão iguais, são irmãos, porque são igualmente cruéis e benevolentes.Há um provérbio africano que diz: Ninguém experimenta a profundidade de um rio com os dois pés. Omar Ba mergulha e emerge inteiro, incólume, no mar savana de suas raízes.

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