Os trópicos fervem, mas a neve não derrete. Pode um alce do Canadá mordiscar as bananas que nascem em penca no calor de Trinidade? Quando a infância esparrama-se pelas estradas de uma memória que é feita de itinerâncias, as paisagens derretem como tinta e ultrapassam as percepções da realidade. A realidade só serve se for fantástica, e um quadro só pode existir se for para contar uma história. O pintor Peter Doig segue narrando-as.

Peter Doig Atelier

Ele escolheu morar na ilha onde sua imaginação nasceu. É em um lugar muito alto de Trinidade, onde nuvens ocasionalmente entram pelas janelas e embaçam a vista, que o pintor nascido na Escócia e morador também do Canadá resolveu abraçar a sua vocação para pintar lugares. Essa itinerância, o joelho gelado de neve e o rosto queimado de sol, essa colcha de permanências, fazem com que a arte de Doig, ainda que pintura, transborde movimento. Mas é um movimento da memória.

Blotter, 1993

Suas pinturas não são sobre as praias arenosas ou montanhas coroadas de neve, os lugares físicos onde o artista ralou o joelho e perdeu seu primeiro dente. As paisagens são fantasmas melancólicos e fantásticos, a alma de lugares que resolveu implodir em cor e subverter a realidade a um espaço muito mais íntimo e que qualquer um pode ter acesso: o da interpretação.

Spearfishing, 2013

A paisagem, que é uma tradição europeia na pintura, se transforma em um portal imaginativo. Os céus cor de laranja, as florestas que piscam, as canoas sem destino são a geografia de fantasmas tropicais que se contentam em banhar-se nos rios e causar estranheza. O pavor do pescador com a lança, a figura branca que se perde nas árvores. É um lugar imaginário, mas que pulsa nos olhos como se pudéssemos alcançá-lo simplesmente pegando uma bicicleta e indo até lá.

House of Flowers

Suas pinturas não nascem somente dos cristais de suas próprias memórias, mas também dos feixes de luz que aprisionam instantes nas fotografias. As coisas que são curiosas, como um homem todo encapuzado ou um cavalo quase mítico em sua alvura, Peter fotografa e reinterpreta em seus quadros.

Uma das exposições que Peter fez tirou seu título da frase do escritor Robert Louis Stevenson: Não há terras estrangeiras. O viajante é o único estrangeiro. Ser estrangeiro nas pinturas de Doig é permitir-se ir além da tinta, escorregar nela, como um tobogã para uma memória que também pode se tornar sua.

 

 

 

 

 

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