Robert Mapplethorpe

 

A flor não é frágil. Você pode apertá-la no punho e arrancá-la pelo caule para vê-la murchar, mas a brutalidade não enverga todas as flores. Elas nascem no pântano onde só há filetes de luz. Elas rebentam numa haste verde a terra dura e com seus tantos braços ficam-se atléticas na terra. Elas fazem sexo com insetos libidinosos, elas comem insetos desatentos. Elas se abrem ao ar como órgãos sexuais. Robert Mapplethorpe, quando indagado porque fotograva flores se as odiava, foi categórico. “Eu fotografo flores porque parecem um pênis”.

opera127_museo_madre

Uma rua em Nova York, uns cardos pendendo dos bueiros, talvez umas margaridas nos vasos da janela. Duas galerias abriram exposição na mesma noite. Na primeira, cintilavam entre os copos de champanhe os autorretratos de um homem com cachos negros, além de fotos de belas flores e naturezas mortas. Do outro lado da rua, para quem saia do metrô, as flores eram falos. As fotografias de homens nus entrelaçados eram de sublime erotismo. O artista Robert Mapplethorpe era o autor das duas exposições.

Thomas, 1987

Ele nunca se encaixou. A família tradicional do subúrbio, a mãe obcecada por limpeza, a igreja castradora, o exército. Estava lá mas era somente um corpo, um carpelo vazio, querendo expressar-se de tantos jeitos mas dialogando somente consigo mesmo. O mundo era chato, dicotômico, a beleza um valor universalizado. Já a beleza para ele, quando começou a fotografar, era a beleza antes não vista.

Lisa Lyon, 1982

O corpo não é frágil, a mão que o enverga só o faz se o acaricia. Mapplethorpe fotografou o nu delineado pela luz e pela harmonia. Fotografou a mulher fortíssima, fotografou dois homens que derretem em tons diferentes em um enlace. Fotografou flores fálicas e fotografou Patti Smith, com quem teve uma relação longa, uma fenda no lugar comum.

Patti Smith - Álbum horses, 1975

Fotografou o homoerótico não para chocar, mas por ver nessa relação a beleza sublime do amor e da sexualidade. “Eu me sentia obrigado a fazer essas fotos”. Afinal, era o seu mundo. Em uma época que a homossexualidade ficava completamente fora dos circuitos de arte, Mapplethorpe utilizou seu amor quase objetal pela figura masculina para explorar o sexo homoerótico e também o sadomasoquismo. Era uma relação sexualizada, onde o corpo era flor do desejo e a luz a ponta dos dedos.

Os olhos de opala, o queixo levantado, todas as flores fotografadas jogadas no lixo, um homem pelado em frente a câmera. Desnudar-se como qualquer elemento da natureza, permanecer mesmo depois da morte, como a fotografia de um homem que quebrou a haste da flor, que entendeu a beleza ímpar de ser exatamente o que se é.