RODA DE CONVERSA PARA ACALMAR A DOR

SOBRE  A RODA

A culpa não foi sua.

Negahamburguer botou pra fora quinze telas que provam isso.
Não foi. Mas a violência foi sua. Ficou aí, íntima e filha da puta. O que vai sair dela?

Trabalhar a dor. Aí é contigo.

A Roda de Conversa para Acalmar a Dor foi a conclusão da primeira exposição individual da Nega, trabalho que o Espaço Húmus acolheu. Ali, entre os quadros, tivemos um bate papo aberto e tranquilo, sem regras e com coração.

Foram quase três horas de conversa, que dividimos aqui em capítulos. Ao longo das próximas semanas, vamos trabalhando eles e soltando um de cada vez.

 

APRESENTAÇÃO

Espaço Húmus, o que somos e porque estamos propondo esse encontro.

ESTUPRO

Pô, você deu pra outros caras, porque não vai querer dar pra mim?

Também, com essa roupa que você tá vestindo, esperava o que?
Se a mulher não se dá ao respeito, não sou eu que vou dar.

Até na violência a mulher é estereotipada.

Eu queria falar o que eu não tinha conseguido.

Queria colocar a história no mundo, falar pro meu pai.
O alívio que era ver outras mulheres falando que sofreram a mesma violência.
O quanto aquilo me tirava da minha solidão.

“Eu não queria voltar praquela cidade. Não queria passar por aquilo. Era o mocinho, filho de político, cheio da grana, “pô, você deu pra outros caras, não vai dar pra mim”?. Eu não falei o nome de quem me agrediu. Mas o mais importante da minha história foi o apoio das outras pessoas”.

 

ASSÉDIO E MÍDIA


Meu trabalho não falava com minhas amigas. Nem com meu espelho.

Corpos que não existem. Preços que ninguém paga.
Mas era o que as revistas queriam.

Bom. Ninguém vai contar as histórias que eu acho relevante.
Então vou ser eu mesma.

Eu vi um post de uma amiga falando sobre assédio, muito publicamente.
Em cinco minutos, duzentos comentários.
Meu deus, dá pra falar assim, em público?
Abrir essa porta é coragem.
Assédio está arraigado. Nem se percebe como agressão.
Mas é. Chega de fiu fiu.
Oito mil respostas em duas semanas.

“Eu tinha onze anos. Uma criança voltando da padaria, um cara passou de carro, abaixo o vídeo e gritou aquela merda que eu nem entendi. Eu derrubei o pão, chorando. Uma senhora me parou na rua e eu disse o que aconteceu. Ela respondeu, mas menina, que bobagem, você tem que levar isso como elogio. Ele gostou de você”

 

NEGAHAMBURGER


De primeira eu não tinha muito esse viés. Achava legal grafite.

Mas o cara acha que você tá lá pra se mostrar.
Sei lá. Tava lá porque queria. Mil motivos sem ser o homem.

Eu tinha essa irritação do que me pedem para ser feminina.
Na adolescência cortei o cabelo bem curto, minha mãe “Meu deus”.
Por que você não usa mais vestido? Por que tanta tatuagem.
Precisa responder? Porque eu gosto.
As pessoas acham que podem sair dando palpite. Me deixa.

Eu nunca passei por estupro. Nem Quero.
Mas você vê umas coisas que precisam ser ditas.

Empatia te coloca no lugar do outro. Expressar isso é necessário.
Não sei. Tou com vontade de chorar.

“Você é forte. Vai passar. Foi uma foda mal dada” Que coisa horrível de se dizer. Meu marido, ele era meu amigo na época, eu contei pra ele, anos depois. Foi a primeira pessoa que chorou comigo. Era o que eu tinha esperado o tempo inteiro”

 

NEGRAS, ORIXÁS E SEXUALIDADE ADOLESCENTE


Eu não entendia quando a mãe falava essa palavra, racismo.

É quando branco não gosta de preto, dizia a mãe.
Fui entender isso só na escola. Uma alemã, freira, dois metros de altura.
Eu pelada, sangrando. Lembro bem do sangue caindo no azulejo. A meninada rindo, gritando.

“Silêncio! Olhem bem para o que vocês estão vendo. É assim que todo preto deve ser tratado”.

A mãe sempre foi danada, uma mulher Iansã louca, chegou um dia e falou “Levanta e se arruma”.

Me levou para o MNU – Movimento Negro Unificado. Eu era a caçulinha, conheci um monte de intelectuais, ativistas. Mulheres negras.
Comecei a ouvir falar do valor, da beleza, dos cabelos.
A questão dos corpos. Corpos reais.

É o grupo que realiza a cicatrização.

A cicatriz pode ser indelével, mas ela está lá, não vai embora.
Espero que as rainhas e princesas iorubanas possam ajudar com essa cura.

“Eu escrevo. Escrevo literatura infantil. Mas eles não correm na grande mídia. Porque eu trabalho empoderamento de meninas negras, focado na mitologia iorubana. Essa mitologia traz uma mulher outra. Foi uma mulher que criou o universo. Aqui, elas não saíram da costela de ninguém. Ela vai à luta e tem capacidade de se manter, de realizar suas questões. Se relaciona com homens, com mulheres. Outra referência do feminino”

 

CASA DE LUA, BELEZA E ASSÉDIO


Faço parte de um coletivo de mulheres chamado Casa de Lua.
A gente queria o encontro, um espaço de acolhimento e expressão.
Estamos ali pra fazer juntas o que não conseguimos sozinhas.

Eu não posso ser bonita, não posso me sentir bonita.

Eu sou coxuda, não posso andar com as pernas de fora.

E aí tem outra violência recorrente: você tem o rosto tão lindo, porque não emagrece?

A gente fez um ensaio na Casa de Lua de fotos nuas.
Era uma apropriação da casa, do corpo, da beleza.

Meu problema era olhar pra foto e gostar do que estou vendo.
Mas fotos que eu gostei, caramba, essa mulher é muito gostosa, desculpa.

“A gente sabe o impacto de ser ou não bonita para uma mulher. É muito complicado se libertar disso dentro do padrão de beleza que existe por aí. A questão da beleza e se sentir bonita para uma mulher gorda é mais difícil ainda. Olhar no espelho e se sentir bonita, confortável com o corpo, também é uma militância”

 

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA


Não era uma gravidez indesejada, mas foi inesperada.

Acontece que eu tive uma gravidez tubária.
Resolvi fazer uma lista de médicos do plano de saúde e ir vendo se me apaixonava por algum.

Encontrei uma sala lotada de mulher grávida.
De repente ele falou, ué, tem alguma coisa estranha aqui.
Mas me botou pra fora com cinco minutos de consulta, pedindo mais exames.

Quando voltei com os exames eu estava preocupada com ter uma gravidez tubária.
“Você tá tendo sangramento?” Não. “Tá tendo cólica?” Não. “Então não é gravidez tubária coisa nenhuma, minha filha”.
Voltei pra casa, tinha que refazer os exames em dez dias.
No terceiro dia, tive uma dor alucinante e desmaiei no banheiro.
Hemorragia interna. A gravidez tubária rompeu minha trompa.

Eu cheguei no hospital meia noite. Às sete da manhã fui pra sala de cirurgia.
Já tinha perdido um terço do sangue do meu corpo.
E a criança.

“Eu fiquei ouvindo vocês todas aqui, neste ambiente de arte, eu fico pensando como cantora que a gente tem que dar um jeito de fazer essa tradução, porque isso é cura. É cura. Se você faz a sua arte com um nível de honestidade muito grande, para você mesmo, a consequência é isso tocar muitas pessoas ao redor.”

 

VALOR DAS HISTÓRIAS

Em algumas mitologias, existe a separação entre o físico e o espiritual para que o humano compreenda sua essência através da dor.
A dor como um processo de resgate de si mesmo.

“O quanto é valoroso ser capaz de ouvir a história de vida do outro e, mais do que isso, transformar elas em arte e cultura. Seja protesto, seja encantamento. Esse compartilhar e trabalhar provoca nossa cura. Agora, ilusão achar que é apenas a nossa cura, essa energia vai ampliando, abraçando. Por ora, fico feliz que essa energia tomou conta desse coletivo e cada um vai ser capas de irradiar isso.”

YO VENGO A OFRECER MI CORAZÓN

Confira os vídeos da nossa Série Feminismo aqui.

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