Romy Pocztaruk

 

As impossibilidades do passado transformam-se em desvarios. Cortar a Amazônia como um bolo, nas fendas enfiar o progresso, a potência e a força de um motor que não vai a lugar nenhum mas que decepa todas as árvores. As utopias andam de braços dados com os fracassos e com as fricções da mortalidade dos sonhos. A artista Romy Pocztaruk anda na linha pontilhada entre o que foi abandonado e o que ficou. Uma fotografia dos sonhos que ruem.

Romy tem esse desejo de aventura, essa vontade exploratória. Seu ímpeto de descobrir é combustível para fotografias e instalações sobre o abandono e o desejo. Essas duas forças tensionam espaços que guardam memórias de sonhos incompletos, mas também dos que acabaram, involuntariamente, sendo construídos de qualquer maneira. Ela capta esse momento antes do engolimento, do desaparecimento total. Os planos das fotografias são complexos, com cores fortes e ausência da figura humana – ainda sim todo o transbordo do seu vestígio. É uma hiperhumanidade no meio de onde ela parece não mais existir.

O tempo não é sempre o humano; há animais que só acordam depois que o sol se põe, e plantas que esperam as brumas do anoitecer para abrir ventosas carnívoras. Ainda sim, arquitetamos espaços como plenos donos dele, acreditando que qualquer edificação dobra a natureza à uma lógica racional. Mas a natureza é selvageria e engole, sem pudor, sem pedir, os dentes sempre protuberantes. No trabalho A Última Aventura, exposto na 31ª Bienal, a artista viajou pelos rastros do fracassado projeto da Transamazônica, que nasceu como uma estrela de progresso, mas estilhaçou-se com a força das febres, de uma floresta dentada e um planejamento incompatível com a complexidade da geografia amazonense. Sobrou o sonho e ele é o fantasma que habita as fotos.

E a natureza não precisa de árvore ou de musgo para engolir. Ela floresce no abandono de prédios na cidade, como no trabalho Beelitz, ou também na desolação de uma cidade que não deu certo, como em Lost Utopia. Esse desejo humano de conquista e esse hábito natural do abandono são, nas obras de Romy, uma narrativa ininterrupta sobre os lugares que tocamos e que nos destroem.

 

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