Salloma Salomão – Reescrever a história

O médico e psiquiatra Frantz Fanon entendia o racismo como modo socialmente gerado para ver o mundo e viver nele. Em sua curta mas impactante bibliografia, ele destrinchava as origens do colonialismo e o imenso impacto mental nas populações negras; e dizia que a luta deveria ser absoluta pela reconstrução de um novo mundo, e pelo resgate da ancestralidade das comunidades dizimadas.

O novo vídeo da série Tão Longe, Tão Perto, tem como convidado o africanista e historiador Salloma Salomão. No início, o entrevistado já reitera não acreditar numa noção de identidade brasileira, pelo menos não como é apresentada, criação fabulosa de uma elite intelectual, muito próxima das rodas de poder que massacram e reprimem as comunidades.

Para se falar uma história de identidade, é preciso um resgate profundo nos maiores confins, porque a história foi escrita porque quem tem costume de ocultar. É uma história plenamente aceita, como se tudo fosse terminar no branco, num mundo eurocêntrico que orbita em torno de si mesmo e classifica tudo que está na borda como exótico. Salloma insiste na necessidade de cavucar nas raízes do intelectual negro, das comunidades negras e seus levantes artísticos.

E num Brasil que se orgulha tanto de autoproclamar-se fruto de uma mistura genuína e positiva, o historiador questiona o papel do negro, que teve sua narrativa decepada por uma telegramaturgia elitista, por um mundo intelectual branco que colocou o negro na posição que lhe convinha. Mas a força dos fandangos, do lundu melodioso, da musicalidade não pode ser esquecida. Que não se esqueça também do Teatro Experimental do Negro, criação de Abdias Nascimento, mas plenamente sustentado por uma trupe talentosa de operários e domésticas que buscaram na ancestralidade e na frustração da repressão racial uma força inigualável para interpretar. E que não se negue a força do trabalho de Salloma, que pesquisa a musicalidade africana e a resgata, rica e teimosa, frente a um mercado audiofônico incrivelmente autocentrado.

“Quando nós nos revoltamos, não é por causa de uma cultura especial. Nós nos revoltamos simplesmente porque a maioria das vezes, não conseguimos mais respirar”, escreveu Frantz Fanon. A revolta só será completa quando o pulmão respirar tranquilo, e a história for reescrita pelas mãos que finalmente merecem escrevê-la.

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A websérie Tão Longe, Tão Perto acompanha o estudo e a pré-produção do filme documentário Largou As Botas e Mergulhou No Céu, que será rodado no próximo verão. A proposta da série é trazer experiências e ideias de gente que trabalha diante das questões sociais, políticas e culturais brasileiras, seja da antropologia ao cinema, do debate acadêmico ao das ruas.

O leque de entrevistados – cada um dos episódios traz uma conversa sob a mesma estética de enquadramento e linguagem – passa por literatura, música, cinema, televisão, arquitetura, design, sociologia etc., para, a partir da área de atuação do personagem, levantar os principais temas, questões e aflições da contemporaneidade.

De forma geral, Tão Longe, Tão Perto visita os trabalhos e divagações dos entrevistados para construir um raciocínio sobre a nossa sociedade atual. Da série, que começa a ser publicada no mês de outubro no Espaço Húmus, a equipe vai absorvendo o engajamento teórico para contar no documentário Largou As Botas e Mergulhou No Céu histórias comuns aos brasileiros, objeto de pesquisa e criação dos entrevistados deste momento de estudo.

Passada a série, o documentário tentará mostrar na prática todos esses contrastes, inquietações e particularidades da população brasileira por mais de dois meses de viagem, de dezembro até o Carnaval, tendo como área de abordagem o sertão e o litoral nordestinos – o Nordeste é a região escolhida para o projeto, ainda que não se trate de um trabalho com foco regional ou limitação geográfica. — A equipe é formada por Bruno Graziano, Paulo Silva Jr., Raoni Gruber – trio que realizou o documentário O Acre Existe (estreia no Canal Brasil em 28 de outubro) – e Cauê Gruber.

A websérie Tão Longe, Tão Perto estreia em outubro e terá 10 episódios entre as semanas que antecedem a viagem a o período da própria produção do documentário. O filme Largou As Botas e Mergulhou No Céu será produzido entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015 e tem previsão de lançamento no segundo semestre de 2015.

<<< Confira todos os vídeo da série aqui. >>>

 

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Site da produtora Controle Remoto Filmes

Site do filme O Acre Existe

 

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