Stanley Kubrick

 

Em uma entrevista à revista Rolling Stones, Stanley Kubrick (1928- 1999) estava desconfortável. Incomodava-o profundamente as questões conceituais que os jornalistas insistiam em fazer, pois para ele, nenhuma resposta podia ser simples. Quanto perguntado sobre os rumores de que refazia as cenas de seus filmes mais de 100 vezes, o diretor de O Iluminado (1980), Laranja Mecânica (1971) e 2001: Uma Odisseia para o Espaço (1968) foi enfático: “Isso acontece quando o ator está despreparado. Você não pode atuar sem conhecer o diálogo. Se os atores tem que pensar sobre as palavras, eles não podem trabalhar com emoções. Então você acaba fazendo uma cena trinta vezes (…) Mas, se ator é um cara legal, chega em casa e diz: “Oh, Stanley é tão perfeccionista, ele faz cem takes para cada cena”, então o trinta vira cem, e aí nasce minha reputação”.

E é, de fato, uma reputação mitológica. Até hoje se escarafuncha cada filme, cada aspecto escondido de direção de produção, em um conclusão cada vez mais clara que era a obsessão e a paixão de Kubrick que o fizeram o diretor mítico que se tornou. Criança introspectiva, de profundos olhos negros e o hábito de estar sempre lendo, Stanley nasceu em Nova York, onde viveu por toda sua vida. Jogar xadrez era um de seus passatempos favoritos, o qual ele fazia no Museu de Arte Moderna. Era apaixonado por filmes: Fellini, Pasolini, o russo Alexander Nevsky. Quando conseguiu o LP da trilha sonora de um de seus filmes, ouviu-o tantas vezes que sua irmã mais nova quebrou o disco em sua cabeça.

Com apenas 17 anos, já se sustentava como fotógrafo para a prestigiada revista Look. Conseguiu emprestado de conhecidos dez mil dólares para realizar o seu primeiro filme, Fear and Desire – produção que ele considerou amadora e que tentou ao longo dos anos retirar do mercado, comprando a maioria das cópias feitas. Foi câmera, produtor, iluminador e engenheiro da produção, que realizou com apenas mais três profissionais. Sua habilidade de se desdobrar e cobrir cada aspecto da obra vinha do desejo de que elas não fossem mais um filme banal, adicionado a pilha dos que eram feitos anualmente. Ele exaustivamente se debruçava sobre cada história desejando que elas alcançassem o status de obra de arte.

Cada um de seus filmes continha temáticas completamente diferentes do outro, e suas semelhanças eram no esmero com que Kubrick os produzia, atento a cada mínimo detalhe. Em Barry Lindon (1975), a história de ascensão e declínio de um fraudulento e pedante irlandês, Kubrick fez toda a iluminação com luz de velas. Para conseguir captar com precisão, foi necessário utilizar uma lente adaptada pela NASA. Em Laranja Mecânica, o ator principal Malcolm McDowell teve a córnea descolocada, pois não foi usado nenhum truque na cena de tortura em que seus olhos são segurados por um aparato mecânico – a dor tinha que ser a mais real possível. Não acreditando que Jack Nicholson fosse maluco o suficiente para enlouquecer a atriz Shelley Duvall, esposa do protagonista de O Iluminado, Kubrick atormentava-a constantemente, fazendo-a repetir as cenas que ela mais tema para conseguir em sua face o verdadeiro terror.

O épico espacial 2001: Uma Odisseia no Espaço, é recheado de pequenas excentricidades. Kubrick tentou exaustivamente alcançar o efeito da gravidade na cena da caneta flutuante, e para tanto, colou-a a uma placa de vidro que era movimentada e dava a impressão de que ela estava no ar. Para as cenas de superfície da Lua, importou tonelada e mais tonelada de areia, as quais pediu que fossem lavadas e pintadas. Na entrevista que deu à revista Rolling Stones, o diretor foi passional ao dizer que editar era a única forma de arte original do cinema, e que deveria ser feita com todo o esmero.

Kubrick morreu em 1999, sem saber da fria recepção ao seu último trabalho, De Olhos Bem Fechados.

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