Thais Beltrame

 

Abismos largos para pernas pequenas; quando se é criança, se anda de mãos com o susto. Ele é gigante, mas não gigante gentil. A casa da gente é bosque habitado pelo escuro. A aranha que vive no canto dobra de tamanho, devora o colchão. O bicho papão acampa debaixo da cama. A floresta espinhenta entre o quarto, a cozinha e o copo da água. Quando pequena eu temia os espíritos invisíveis mas que teimavam em fazer barulho.

Quando a ilustradora Thais Beltrame era pequena, ela temia o escuro, a piscina sem sons que é a noite. Quando criança, Thais já desenhava; gostando mais de caneta, menos de lápis colorido, ela foi desenhando um mundo em sóbrias cores, mas com a força de mil sóis refletidos em piscina de plástico. Hoje seu nanquim e seu pincel são detalhistas: O cabelo das crianças sedoso, escorre pelo papel, vontade de passar um pente nele. Á árvore tem todas as folhas e não seria estranho que um passarinho se confundisse, quisesse fazer ninho. A névoa do sonho permeia os desenhos, como se eles fossem as lembranças incompletas da criança. Por serem do passado, são preciosas.

Pois a vez que a abelha picou seu dedo e fez ele inchar doeu, mas hoje você se lembra sorrindo. A obra de Thais congela o instante de suspensão, em que um sentimento ocupou todo o corpo pequeno. As meninas, meninos e animais estão numa eterna ciranda. Se juntam em grupos vestidos de pijama, num desamparo, e dão as mãos. Mas seus rostos redondos não têm medo. Há uma placidez e uma aceitação. Se a casa queima e o cachorro já é osso, as crianças sentam na varanda e tocam flauta. Não há mais nada a fazer.

E se a casa queima, e se o ninho é muito grande para escalar sem escada, e se o urso se aproxima sorrateiro da casa de árvore, está tudo bem. Pois a criança tem em seu poder o miasma irresistível do tempo, que torna as dores passageiras e faz as casquinhas sararem mais depressa. A infância não fica velha; ser criança é ter a liberdade correr atrás do coelho em um buraco, ou cruzar o mundo com uma girafa em um balão.

A obra de Thais não espanta os monstros da infância, nem a torna mais colorida. Faz ela voltar, como se o adulto finalmente reconhecesse a beleza daquele escuro, caminhasse ao seu lado, perdoasse os sustos. Ainda há tempo para todos nós.

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  • Koto

    Boa noite!

    Sra. Thais Beltrame, além de ilustradora, você também é educadora de Artes?

    • http://espacohumus.com Humus

      Olá, Koto!

      Se você quiser, podemos te passar o contato da Thais Beltrame. Ela ministra aulas de arte sim!

      O que você acha?

      Um abraço!