Val Del Omar

 

Ele queria encantar a todos, um mago careca, os dedos puídos de descobrir como capturar a luz. Estava disposto a sacrificar a liberdade de seus espectadores, mas somente em nome de razões poéticas, de armadilhas sentimentais. A sua liberdade como alquimista, essa, ele nunca pôs em questão. Com uma Espanha em chamas, num laboratório do futuro dentro de um passado conversador, Val Del Omar fazia cinema.

Suas incursões pela captura da luz, pela vontade de ser a mariposa chamuscada pela lâmpada, começaram muito cedo, quando pequeno passava criando maquinários pudessem capturar a luz e o som. Obcecou-se pela instrumentalização da poética, dedicando-se a aprimorar tecnologias para a captura de imagens e desenvolvimento de narrativas.

Era um desejo consciente da matéria; como um rio, ele queria que o cinema não negasse a natureza forte de sua correnteza.  Em seu primeiro filme,  En un Rincón de Andalucía, gastou uma quantidade considerável de dinheiro, para depois destruí-lo com todo afinco por não achá-lo satisfatório. Os outros projetos em que se envolveu já davam margem ao delírio que seria sua filmografia, uma experimentação cabal, como se nos braços magros do espanhol ele pudesse apreender os processos do fogo e da água.

Era uma Espanha de violência e brutalidades, um rachado na calçada revelaria um sangue espesso. Eram os anos da ditadura de Franco e sua guerra psicológica era cercear o pensamento e a liberdade. Os filmes de Val Del Omar seguiam a correnteza oposta ferrenhamente, e em cada êxtase de seus frames, o gato verde, a estátua que abre a bocarra ante o incêndio, se sente a flama da completa liberdade do espírito, que encontra na arte e no delírio uma resposta as amarras que o corpo de um modo ou de outro tem que seguir.

Sua trilogia Tríptico elemental de España é a epifania do misto entre uma terra dura e concreta e da pele trêmula do delírio material. Ele utiliza os elementos para contar a história de terras em transe, numa partitura sonora que captura bem o espírito extenuante de uma guerra civil. Em Fuego en Castilla, ele coloca santos frente a fogo puro e êxtase, utilizando movimentos loucos da câmera. Já em Aguaespejo granadino, os ouvidos tentam entender a água, o corpo tenta ser da água, sua causa nas pessoas. O terceiro filme, Acarinõ Galaico, que falava sobre a força do barro, nunca foi terminado. Os dois primeiros filmes são exibidos na 31ª Bienal de São Paulo.

Val del Omar acreditava demais no cinema, porque ele era forte como mistério, e permaneceria como o mistério, o fundo de um rio, com pedras cintilantes, cheias de alerta e amor.

 

 

 

 

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