Voluspa Jarpa

 

Não há dinossauro que fique enterrado para sempre. O processo de descobri-lo pode ser penoso, brutal, comer as unhas das mãos. Mas a cada osso encontrado, a cada calcário branco em meio a poeira, algo há muito tempo morto berra. Quanta poeira pode realmente enterrar o passado? É a mesma coisa com os arquivos. É com eles que a artista chinela Voluspa Jarpa entrega-se a um trabalho de arqueologia da não história.

Seus dinossauros são os arquivos e a possibilidade de retomar com eles uma narrativa não contada, ou contada de um único jeito. As histórias políticas são meramente decisões de interesses ocasionais. Como meteoros brutos que apagam sistematicamente o que não é conveniente para o que sobe ao poder. A história das ditaduras na América Latina é um claro exemplo disso. Há uma neblina densa que impede-se de chegar na verve, ainda que essa veia de violência e repressão já tenha sido contada inúmeras vezes.

O processo de investigação é longo, com um pincelzinho e com uma lupa. As obras de Voluspa são criadas lentamente, partindo sempre de uma investigação profunda. O resultado é monocromático, impactante e não completamente revelador. Cada obra é sim um reflexo de uma descoberta, mas que não é entregue por inteiro. Essa fração é uma provocação estética e política.

Quando a CIA oficializou que descartaria documentos referentes as ditaduras latinas, Voluspa foi engolfada pela quantidade de um riquíssimo material. Mergulhou como uma traça no mistério do material e principalmente, nas suas rasuras, sistemáticas, borrões de tinta negra que escolhiam o que podia ou não podia ser lido. Deste trabalho, resultam-se obras como Litempo e também Histórias de Aprendizagem, que estará na 31ª Bienal de São Paulo. É um labirinto de perspectivas, onde a própria estrutura da instalação impede que o espectador tenha total acesso ao documento.

Em outros trabalhos, ela não necessariamente usa arquivos propriamente ditos, mas a ideia de arquivo da memória e a construção de um passado coletivo. Em trabalhos como Slaves, ela usa uma obra já pronta para questionar esteriótipos da figura feminina. Em Plague, ela dispõe em linhas figuras diminutas de mulheres histéricas, discutindo a histeria como sintomática a uma sociedade que reescreve constantemente sua história.

O historiador Walter Benjamim disse que não há documento de cultura que não seja ao mesmo tempo um documento de barbárie. Voluspa Jarpa entende que a barbárie pode ser moldada, destrinchada e exposta, aos olhos de quem talvez não a tenha presenciado, mas que a sente correndo no sangue.

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