Walid Raad

 

Nos escombros, a História. Ou uma história. No trabalho de documentação, ocupar-se inteiramente de aprender, ser humilde ante a constante destruição e reconstrução de uma memória coletiva que pulsa, fortemente, como um sangue poeirento dentro das veias de uma nação. Sim, houve guerra. Sim, houve um mosaico de um azul tão ímpar que parecem fragmentos do céu despedaçado. E sim, um fato pode até ser verdadeiro, mas memória dele é flutuante como o pó. É essa história enigmática que o artista Walid Raad trabalha em suas obras.

Quando todos os olhos se fixam num ponto do mundo, sua história é diariamente reescrita. Os escombros esmiuçados com um espanador que está subitamente interessado em qualquer fragmento. Foi assim com o Oriente Médio. De origem libanesa, Walid também voltou seus olhos, mas com criticismo e curiosidade. Afinal, do que se faz a história de um lugar? Se for de seus documentos, eles não precisam ser verdadeiros, mas uma apreensão da memória coletiva, que é sempre mutável.

Walid decidiu então ser muitos; decidiu ser uma fundação imaginária, que se constituísse numa biblioteca imagética e imaginária da Guerra Civil Libanesa. O The Atlas Group foi por muito levado a sério como instituições de documentos e arquivos, mas na verdade, tratou-se de uma reflexão sobre esses documentos histéricos, que carregam tantas verdades mas também são frutos do devaneio e da interpretação individual. A história que é construída não é necessariamente verdadeira, mas quando ganha essa alcunha, é difícil de ser refutada.

O projeto Scratching on Things I could Disavow segue então essa linha de pensamento onírico , voltando o olhar de múltiplas plataformas do artista para o recente interesse de instituições ocidentais na arte árabe. O que interessa a Walid é a infraestrutura da imaginação acerca desse exotismo e desse interesse mais do que súbito. O objeto de arte como instrumento de transformação de uma história e a criação de uma narrativa artificial e perfeitamente aceitável.

Na 31ª Bienal de São Paulo, o artista apresenta um fragmento dessa contínua investigação, com a obra Cartas ao Leitor (1864, 1877, 1916, 1923). Oferecendo mostras de paredes pré-fabricadas para um imaginário Museu de Arte Árabe Moderna, que funcionaria numa grande cidade cosmopolita, ele atenta para um imaginário problema de sombra, que tiraria a  beleza dos objetos expostos, criando no espectador uma manifestação alucinatória de um problema no plano do não real.

Texto por Cecília Garcia

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