O pai estava sentado em uma confortável poltrona, fumando cachimbo. Sua voz foi gentil, porém firme. “Você deve desistir do piano. Não tem talento. É inútil desperdiçar tempo nisso”, para Yoko Ono, as palavras foram um alívio. Aprendera a tocar o instrumento clássico apenas para agradar o pai, embora a música fosse uma paixão. “Pai”, anunciou, cheia de coragem, em plenos anos 40. “Eu quero ser compositora”. O pai admoestou que não havia compositoras mulheres e que seria um caminho árduo a se traçar. Yoko, cuja o nome significa “Criança do Oceano”, indiscutivelmente traçou-o, rumo a liberdade de criação.

De pequena tinha como lição de casa de seu prestigiado colégio escutar todos os sons da natureza para compôr canções. De olhos atentos e ouvidos abertos prostrava-se na janela, apreendendo a melodia dos pássaros.  Entendia que a música tinha muito a ver com os sons do que propriamente compôr uma melodia agradável – o que posteriormente, a fez aproximar-se de compositores de vanguarda como John Cage.

Era revolucionária, liberta, desbravadora. Uma adolescente monumental de cabelos negros e  maxilar marcante. Chegou em uma Nova Yorke efervescente em movimentos artísticos e culturais, proclamando que a música podia ser conseguida através de repetidas descargas de privada. Até para os vanguardistas do grupo Fluxus, onde participava ativamente, Yoko era bastante polêmica. “Se você é uma boa garota, por assim dizer, e segue todos as tradições dos vanguardistas e seus modos de falar, então acho que eles permitem que você exista. Então eu não sei se foi o fato de eu ser mulher que os ofendeu, ou o fato de eu estar em constante rebelião. Mas acho que foi uma mistura de tudo. Mulheres não devem ser rebeldes para eles”.

Yoko realiza uma arte de desprendimento e de interação; muitas das obras contém instruções para que o espectador se aproprie e também faça parte da arte construída. No livro Grapefruit, a artista assinalava instruções e desenhos; umas delas  é que o livro fosse queimado depois de lido. Por ter passado por guerras e constantes migrações, Yoko tinha uma forte relação com os temas de longevidade e morte. John Lennon fascinou-se com a artista que propunha que se subisse em uma escada para ler a minúscula palavra Sim. Yoko, sentada, aberta a todas as tesouras que a desnudavam, como uma fruta sendo descascada, na performance Cut Piece (1964).

John Lennon declararia que Yoko Ono era a artista mais desconhecida do mundo. “Todo mundo sabe quem ela é, mais ninguém sabe o que ela fez”. Junto com o ex-beatle, a artista engajou-se em uma arte ativista pela paz, além de ser inspiração e parceira em alguns dos discos mais bonitos do músico. Com a morte do marido, Yoko empenhou-se ainda mais em divulgar a arte pacífica de John Lennon, bem como todo seu valor musical.

Hoje, Yoko tem o cabelo espetado, as roupas são mais escuras, a pele fina como papel quase nenhuma ruga. Quem a viu coberta pelos cabelos e nua em uma cama de paz hoje a vê dançando para lá e para cá em um clipe em que proclama a felicidade de ser uma má dançarina.

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